Quem não se lembra dos Tamagochis, os bichinhos virtuais que estavam nas mãos de todas as crianças no fim da década passada? Cãezinhos, gatinhos, dinossauros virtuais de estimação. Esses programas que simulavam bichinhos atingiram um nível de consumo tão alto que era muito fácil de encontrá-los nas barraquinhas de camelos em qualquer esquina. Tratava-se de uma solução para quem não tinha espaço, paciência, coragem, responsabilidade para cuidar de um animal de estimação real. Um tamagochi simula fome, sono, dor e afeto ao teclar de alguns botões sem que para isso faça sugeira, barulho, solte pêlos e produza incômodos reais.
As crianças que outrora brincavam com os tamagochis agora cresceram. Em março de 2005, a empresa de software Artificial Life lançou Vivienne, uma namorada virtual. A razão e até a demanda para um produto destes é similar ao Tamagochi. A empresa defende até mesmo a idéia de que Vivienne sirva como um ‘simulador de vôos’ para aqueles que tem dificuldade de se relacionar com o sexo oposto. Vivienne adora receber flores, ser levada ao cinema e coisas deste gênero e responde com beijinhos. Uma versão mais atualizada de Vivienne adimite até sugestões eróticas.
Embora a Artificial Life enfatize que Vivienne não substitui uma namorada de carne e osso, os elementos que permitem a colocação de uma tecnologia destas e que responde a uma demanda de mercado pode nos orientar a pensar um novo passo lógico na relação entre seres humanos. A questão é que o pior não está para acontecer, pois ele já aconteceu. Não é verdade que nossas relações de amizade e muitas formas do nosso relacionamento corresponde a uma mediação tecnológica? Talks, messengers, scraps, sms, muita das nossas relações intersubjetivas estão mediadas por um ecran, um monitor, colocando em xeque aquilo que se pensa como uma relação intersubjetiva propriamente dita. Hoje é muito comum ouvirmos o termo ‘namoro virtual’ que dado pela distância dos parceiros tem sua manifestação mediada por uma tela. A pergunta seria, em termos lógicos, qual a diferença entre um ‘namoro’ com Vivienne e um namoro virtual? Seria justo afirmar que é menos concreta uma relação virtual do que outra, também virtual? Na prática a diferença é mínima, pois a lógica do jogo na relação é a mesma.
A própria possibilidade de existência de Vivienne prova sua eficácia. Embora se trate de uma inteligência artificial e ninguém duvide disto, há algo de mágico, parecido com a crença de que há um anãozinho dentro daquelas máquinas de café expresso que opera após receber uma moeda. Sua eficácia está em representar e simular uma relação amorosa mediada por uma tela, que em nada difere de uma relação entre pessoas reais mediada pela mesma tela. Isso é assutador, porque não é a relação com Vivienne que se repete para com as relações reais, mas, o contrário, são as relações reais que se repetem, que acontecem e são recorrentes para com a relação com Vivienne. Vivienne é um paradigma própriamente dito de relação ‘intersubjetiva’ do nosso mundo hoje, com todas as áspas necessárias.